Há alguns minutos, a chuva começou a cair lá fora, trazendo-me lembranças de uma época, de um lugar, de um cheiro e daquele conhecido sentimento que só os dias pura e intrinsecamente natalinos de dezembro são capazes de fazer aflorar aqui dentro. É verdade que ainda não é dezembro, mas é igualmente verdadeiro que o céu se derrama em lágrimas ferozes na rua e que hoje é domingo. E este, em especial e por alguns instantes, nunca se pareceu tanto com os domingos que sempre precederam os Natais de minha infância.
De repente, senti uma forte sensação dos anos de antigamente, já tão distantes da minha vida de agora. Dos famosos tempos que registraram suas marcas e disseram adeus para nunca mais voltar; daqueles que fazem a saudade bater à porta e o coração doer, embora corações não doam. Lembrei-me das chuvas de outrora, da velha estação de trem, dos sinos anunciando a Missa de domingo, da casa grande próxima à pequena praça da velha rua repleta de recordações, do conhecido cheiro do quarto que era nada mais que um refúgio secreto em contraste com os temporais de verão que espalhavam no ar aquele característico aroma de terra molhada; do tio querido que sempre oferecia balinhas após o almoço e, se fecho os olhos, quase posso escutar o Lennon cantar “Happy Xmas” no rádio como em todos os anos e, em seguida, Zezé di Camargo e Luciano fazerem o mesmo com “Marcas do que se foi”. E não é que tudo se foi mesmo?
Foi-se o tio querido morar no céu que hoje chora, foram-se as brincadeiras de criança e os teatros após o almoço de Natal, foram-se também as leituras e os filmes de mãos dadas, os risos, as sobremesas e as tradições, foi-se a casa que já não é mais a mesma e as despedidas que jamais serão como antes. Foram-se até mesmo os afetos que, um dia, prometeram tacitamente nunca irem embora e deixarem o amor para trás.
De repente, acabou, ficou no passado. De repente, achou-se entre as lembranças que chegam inesperadamente e fazem os olhos arderem – e os corações doerem! -, os retratos na memória de tudo que se foi um dia e já não é mais. De tudo que foi doce e hoje é doce nostalgia.
Só ficaram as chuvas. As chuvas de verão e as memórias petricor de meu coração.
Essas ainda são as mesmas. E sempre farão os mesmos corações se recordarem de doer por todos aqueles anos que passaram e marcaram não só a memória, mas os cantos dos lábios que, inevitavelmente, em todos os dezembros, se curvaram perante a felicidade.







